Todo mundo acha engraçado placas, anúncios, propagandas e afins com erros de português ou outro idioma - no caso de nós, brasileiros, principalmente o inglês, já que é culturalmente entendido que adoramos usar e abusar da língua de Shakespeare nesse tipo de segmento. Mas é fato que o cidadão que entende da língua de chegada em questão coloca a culpa no tradutor do serviço. Ué: quem primeiro recebe uma mensagem, pensa em um idioma e encontra um equivalente em outro é tradutor, não é? Concordo, seja o termo usado na esfera profissional ou não. E é o "ou não" que preocupa.


Uma vez, em uma festa de formatura, casamento, batizado, confraternização de fim de ano ou coisa que os valha (o nível alcoólico de então não me deixa lembrar hoje...) quase fui malhada quando disse que traduzia para um canal pago de televisão. E os ânimos se alteraram não pela eterna discussão dos erros de legendagem, mas pela tradução de título de filmes, o que eu nem chamaria de tradução, e sim de “equivalência com fins mercadológicos e lucrativos invariavelmente de autoria dos diretores e analistas de mercado das empresas de distribuição”, mas essa fica para a próxima.
Enfim, queriam me bater, como se EU tivesse escolhido todos esses títulos com expressões apelativas da moda (lembram de todos os “da pesada” e “do barulho” dos anos 80 e “fatais” pra lá e pra cá dos anos 90?). Então, é o que sempre digo: o negócio é não generalizar. Existem profissionais, e existem profissionais que não contratam profissionais para executar certos trabalhos. Infelizmente, a tradução é uma dessas atividades.

Assim, deixo um texto do jornalista e cronista Fritz Utzeri. É meio antigozinho*, mas ilustra o post com eficácia. E o mais bacana: não foi escrito por estudiosos e entusiastas da área. Se você se em algum momento já se identificou com ele, erga a mão.

*adoro o termo “antigozinho”. Se quiser, substitua informal e mentalmente por
“antiguinho”. Mas consegue imaginar um antigozinho? Sugestões e experiências
pessoais nos comentários, please
"O cardápio indigesto do tradutor

Tenho o maior respeito pelos tradutores. Acho muito mais difícil traduzir do que escrever, porque traduzir bem é reescrever, recriar a partir do zero, sem ser literal, mas permanecendo estritamente fiel à obra. Imagino o Antonio Houaiss tendo à frente o volume, em inglês, com o início de Ulisses: ''Sobranceiro, fornido, Buck Mulligan vinha do alto da escada...''. Sobranceiro! Se começasse a escrever um livro, começaria com sobranceiro? E imaginem um alemão que resolvesse traduzir Guimarães Rosa (o que foi feito, mas ignoro o nome do herói). Abre o Grande sertão: veredas e a primeira palavra com que se depara é: ''Nonada''. E agora? Como é ''nonada'' em alemão?
O Magu, que anda sumidíssimo depois que o Flor do Lavradio entrou numa reforma que não acaba, pensou em desistir da profissão de repórter e suicidar-se depois que teve que explicar para o editor do Montbläat, o jornal em que trabalha, o que vinha a ser ''subteto do Poder Judiciário''. Experimentem traduzir ''subteto'' numa língua racional qualquer, como o sueco, e vejam o que é bom para a tosse. Para mim, ser tradutor é chegar a um patamar da intelectualidade ao qual jamais terei acesso. É gente como os Marcos, o Santarrita e o de Castro, o Leo Schlafman, a Eliane Zaguri e - por que não? - simplesmente o incomparável Millôr. Tenho uma amiga, Kristina Michaellis, que também se dedica a traduções. Traduziu pacientemente as cartas de meu pai à minha mãe pouco antes dele morrer, na Segunda Guerra. São cartas apaixonadas, mas onde o terror do nazismo se insinua, banalmente, nas providências que ambos discutiam para que ela pudesse tirar um atestado de pureza racial que permitiria o casamento de ambos, já que ela era italiana e ele alemão. (Não foi possível, a morte foi mais rápida do que a burocracia totalitária e absurda.)
Tentei traduzir uma vez e não fui além do primeiro capítulo. É um livro de um jornalista francês, Dominique Lapierre, Muito além do amor. Meu nome figura (imerecidamente) nos créditos como tradutor com o mesmo destaque de Ana Maria Sarda, que fez 90% do trabalho. Traduzir é difícil (e em geral mal pago). Vejam só o que pode acontecer quando burros informáticos resolvem achar que traduzir é mole e bolam programas de tradução instantâneos que outros, mais burros (ou sovinas) ainda, usam. Há alguns meses fui a Brasília e hospedei-me num dos hotéis mais finos da cidade. À noite bateu a fome e resolvi consultar o serviço de quarto. Comecei a ler o cardápio, cuidadosamente impresso, e fui ficando assustado. Onde eles teriam arranjado tal tradutor maluco? Tudo era literal. O contrafilé, em português, virou against filet. Creme Rachel, um tipo de sopa, foi traduzido para It cremates Rachel. ''Creme'', substantivo, virou verbo e a ordem era pegar a pobre da Raquel e metê-la num forno até virar cinzas. Outro prato era à base de ''nobre corte de contrafilé''. O corte da carne era nobre, mas o ''tradutor'' achou por bem transformar o adjetivo ''nobre'' em substantivo e deu num prato de canibal: nobleman cuts of against filet, ou seja, ''cortes de contrafilé de nobre''.
Maminha de alcatra é outro pedaço de carne que pode ser muito traiçoeiro se for traduzido literalmente. Vejam só. Em português o hotel oferece: ''delicada peça de maminha grelhada''. Maminha foi traduzido, ao pé da letra, como breast, que em inglês significa seio, mama ou peito, mas jamais um corte de carne. Imaginem o americano ou inglês horrorizado ao constatar que pode pedir (e comer) delicate breast pieces griled, ou seja ''delicados pedaços de seio grelhados''.
Mais estranha ainda ficou uma picanha na ''manteiga ao café de Paris''. Paris, a capital francesa, metamorfoseou-se no verbo ''parir'', ''dar à luz''. A coisa ficou assim em inglês (?): butter coffe of you give birth, algo que - tentando verter para o português - resultaria em mais ou menos isto: ''manteiga café que você pariu''.
Já imaginaram o gringo tentando entender frutas da estação (da primavera, verão, etc., season em inglês), traduzidas como fruits of the station, ou seja, da ''estação'' (de trem)? Tiras finas de carne resultam em fines ribons of meat. Ribbon em inglês é ''fita'' e não ''tira''. ''Molho de espinafre'' passa pelo mesmo processo maluco: o molho (substantivo), sauce em inglês, vira wet, do verbo ''molhar'' e resulta em algo que até parece inglês: I wet of spinach. A essa altura o hóspede deve achar que se internou num manicômio e vai ter certeza quando perceber que lhe estão oferecendo Pitus in coconut."


Vale a pena ler de novo: Entrevista com o Fritz Utzeri no site Fazendo Media, a média que a mídia faz.

6 Responses
  1. Me orgulho de você, amor...
    Beijos.


  2. Mariana Says:

    Ótimo blog! Ótima Juju!


  3. Alfie Says:

    lindo seu blog!
    parabens!


  4. Paulo Says:

    Massa era o Sílvio Santos que, nas novelas mexicanas e no Chaves, mandava trocar as cidades onde se passavam as cenas (Cidade do México e etc...) por cidades do estado de São Paulo. Assim, já teve novela mexicana onde determinado personagem dizia que iria viajar para Ribeirão Preto!

    Tu devia dedicar um post ao Sílvio Santos!

    Sensacional tu estar com blog! Demorou, mas tu aderiu!

    Beijo!


  5. vabfisio Says:

    essa é minha amiga!
    Muito bom!Parabénzasso!(pode escrever assim,teacher??)hehe...


  6. Alfie Says:

    vai postar mais ou nao?
    (impaciencia do Bart)


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