Passando pela sala esses dias, espiei o filme que passava na tevê (ligada para as moscas, culpa da minha mania de escrever com barulhos externos).
A personagem ouvia “(I’ve Got You) Under My Skin” na voz de Sinatra.

Tradução na tela: “Tenho você encravado em mim”.

Medo. Cole Porter se revira na tumba.

“Encravado” me lembra pelo e unha.

Não se trata de erro de tradução, e minha inquietação nem é essa. Outros tantos deram sua versão para o clássico (além da lenda de que a música fala de um amor ilícito). Mas que o negócio é arriscado, é.


Questão de gosto pessoal e intransferível: não me animo em traduzir letras de músicas.
Sem muita explicação. Apenas não acho que valha o esforço uma vez que, para mim,
música e letra são impossíveis de separar. Sua concepção se dá como um todo.
O que desperta sensações é o conjunto letra e melodia, seja lá em qual idioma for. Quando isolada e traduzida, a letra muitas vezes resulta em um belo texto, mas não invoca mais o mesmo sentimento.

Ruim é quando o texto fica horrível. O que é comum, dado que as rimas (ou falta de...), a métrica (idem) e coisa e tal de uma canção são particulares dela e de seu idioma, inerentes, grudadinhas, e a reprodução em outra língua gera um misto de incerteza e frustração de quem lê. O ouvinte passa a ser leitor, mas não consegue apagar a melodia da cabeça, querendo mentalmente reagrupar música e letra em outro idioma.

Não vamos, porém, confundir tradução de letra de música com adaptações de gosto duvidoso, do tipo “And I Love Her” dos Beatles, exaustivamente executada por uma dupla sertaneja aí (embora fosse de “autoria” de Roberto Carlos). Isso é encomenda para a novela das 7 e golpe mercadológico. Refiro-me à experiência de simplesmente traduzir a letra de uma canção para o seu idioma e continuar esperando que ela surta o mesmo efeito.
Algumas podem até não comprometer. Já as mais elaboradas merecem reflexão.

Ou então músicas de filmes.
Existem as categorias musicais em si. Filmes da Disney. Músicas escritas para o personagem. Músicas com o mesmo nome do filme. Filmes sobre música, e por aí vai. É uma necessidade mútua, ou que a obra visual realmente não faça sentido sem a obra de áudio. Não há como fugir, e a tradução vai acontecer de qualquer jeito – felizmente, no caso dos desenhos, sempre com muita criatividade. Adoro “Eu Me Remexo Muito”, de Madagascar. Nota 10 para o “Tá com tudo em cima”.

Voltando à cena com“(I’ve Got You) Under My Skin”:

A loira do vestido colado caminha lânguida em direção ao amado com as taças e o vinho na mão. E ela sussurra que o tem encravado nela. Ui.

*Traumas de minha infância tradutória: início dos anos 90, “Give it Away” (a do “Guibruêi, guibruêi, guibruêi náu!”) do Red Hot Chilli Peppers bomando “nas rádias”. A Bizz lança o suplemento “Letras Traduzidas”, e estava lá, nessa música:

You do a little dance and then you drink a little water
Você faz uma dancinha e depois bebe uma agüinha

Pior que escrevendo este post, decidi jogar no gúgou e constatei o eu desconfiava havia tempos: os sites de tradução copiam, sim, as traduções da finada Bizz!

1 Response
  1. kk, teoria de conspirações tradutorísticas?


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